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Vendinha do Tiozão do Vinil

terça-feira, 12 de setembro de 2017

Better Call Saul



No domingo, 17 de setembro de 2017 haverá a premiação do Emmy. Os membros da Academia de Artes e Ciências da Televisão premiarão os ganhadores desse ano no Microsoft Theater, localizado na cidade de Los Angeles e o show será transmitido aqui no Brasil pelo canal fechado TNT, a partir das 20h.

Aproveito o ensejo para indicar aos caros leitores e leitoras desse humilde blog algumas das séries concorrentes aos prêmios. A primeira que indico é Better Call Saul.

Concorre nas categorias:

- Melhor serie de drama;
- Melhor ator (Bob Odenkirk)
- Melhor ator coadjuvante (Jonathan Banks);
- Melhor direção (Vince Gilligan, pelo episódio Witness);
- Melhor roteiro (Gordon Smith, pelo episódio Chicanery);

Jimmy com Kim, a sua irrefreável companheira

Adoro esse spin off de Breaking Bad. Criada por Vince Gilligan - que é uma das principais mentes por trás de Breaking Bad e Arquivo X, duas das mais emblemáticas series - narra a história do advogado picareta, mas de bom coração,  Jimmy McGill até ele se tornar a persona Saul Goodman - personagem importante da serie Breaking Bad. É possível você curtir esse show sem ter visto antes o outro que lhe deu origem, contudo, dado que BB é um dos melhores programas de TV já feitos, recomendo fortemente que também seja visto. Além disso, há convergências entre as series em alguns momento e você não vai querer ficar boiando, né?

Jonathan Banks e seu "adorável" Mike
Better Call Saul não é uma serie convencional do tipo que tem ação desenfreada, ganchos a cada final de episódio ou desenrolar ágil, mas sim um programa muito bem escrito, de direção detalhista e cheio de ângulos exóticos, belíssima fotografia e atuações muito acima da média. Bob Odenkirk (o Jimmy/Saul) é notadamente um ator de comédia, mas nesse trabalho ele também mostra que é um grande ator dramático, é difícil não simpatizar ou torcer por esse malandro. Não tem mocinho e bandido aqui. Todos agem bem eventualmente e têm desvios de conduta moral. Isso faz com que os personagens (super bem construídos - diga-se) sejam críveis e verossimilhantes.

Uma baita serie, mas não é para aqueles que estão interessados apenas em entretenimento fácil. Não porque o texto seja complexo ou profundo demais, mas sim porque não há explicações de roteiro, os autores da serie contam com a sagacidade do seu público para entender o que um olhar ou um cenário querem efetivamente dizer.




segunda-feira, 11 de setembro de 2017

Quando a música faz mal

Foto da Internet


Frequentemente ouve-se falar sobre os benefícios da música, seja pelo prazer que ela proporciona, seja no aprendizado, no estímulo cerebral, na diminuição do estresse, e tantos mais.

Pouco se fala dos malefícios, ou seja, nos efeitos nocivos que a música pode provocar nas pessoas.

Hoje falaremos de alguns casos em que a música faz mal à saúde, seja na saúde física ou mental, e deve ser evitada. Falaremos também de alguns mitos sobre os efeitos da música, baseando-se em pesquisas científicas recentes.



Por Flávia Barros Nogueira
Musicoterapeuta, musicista, regente
e professora de música
Autora da página Música & Saúde







A overdose musical

A audição demasiada, especialmente pelo uso constante do fone de ouvido, tem preocupado organizações da saúde em todo o mundo.

Vemos na população, especialmente no meio jovem, a audição ininterrupta de música por várias horas. Sabe-se que a audição musical estimula várias áreas cerebrais, o que pode ser tomado como um ponto positivo, já que este estímulo mantém o cérebro em atividade saudável. O problema reside no fato que, embora tal estímulo seja positivo, em demasia pode sobrecarregar o sistema auditivo e as atividades neurais. Não que nosso cérebro seja limitado, mas é necessário momentos de descanso, para que os processamentos das diversas atividades requeridas por ele ocorram adequadamente.  Ao ouvir música constantemente, o cérebro se mantém em atividade complexa, e isso pode sim ser prejudicial, pois gera cansaço, e após um longo dia de audições, a pessoa pode encontrar dificuldade de concentração e até para dormir e relaxar.

Este efeito nocivo se agrava consideravelmente quando a audição é feita através de fones de ouvido, pois estes aparelhos têm um sistema que limita a fuga do som, por isso, a intensidade que atinge o ouvido interno é muito maior.


Segundo alguns médicos, o uso e abuso de fones de ouvido faz com que os jovens tenham um envelhecimento da audição igual a uma pessoa com 60 anos.

Um relatório encomendado pela Comissão Européia alerta que quem ouvir música acima dos 80
decibéis, durante uma hora, todos os dias, tem uma grande probabilidade de ficar surdo após cinco anos. Se a audição de uma hora diária é capaz de todo esse “estrago”, imagine a audição de horas, como é bem comum.

Em seu recente livro “Alucinações Musicais”, o neurologista americano Oliver Sacks relata vários casos que demonstram os efeitos da música no cérebro humano. Dentre eles, há vários em que os efeitos foram considerados nocivos.

Entre os casos citados, há os chamados earworms (vermes de ouvido) ou brainworms (vermes de cérebro). São casos que podem soar comuns a muitas pessoas, porém, são considerados nocivos e até patológicos quando ultrapassam um nível normal.

Os vermes de ouvido/cérebro são aqueles trechos de música que ficam em nossa mente por horas, até dias a fio. Podem ser desde músicas que gostamos até aquelas que abominamos. Ficar com músicas na cabeça é normal quando elas logo passam, e não chegam a incomodar muito. Porém, quando elas “martelam” nossa cabeça por dias sem parar, podem se tornar insuportáveis e atrapalhar o sono, o trabalho, o rendimento escolar.

Ao fim do capítulo, o autor cita a audição constante a que somos expostos, como agravantes dessa problemática.

Outros casos comuns de efeito nocivo são os ataques epiléticos causados pela audição musical. Ainda no livro de Oliver Sacks, o autor cita a Epilepsia musicogênica.

Desenvolvida geralmente a partir dos vinte anos de idade, segundo estudos, os indivíduos acometidos pela epilepsia musicogênica eram “interessados em música”, ou seja, a música fazia parte constante das suas vidas.
Os ataques ocorridos pelos indivíduos acometidos pela epilepsia  apresentavam formas variadas: alguns caiam inconscientes, mordiam a língua, e outros apresentavam breves ausências, mal notadas pelas pessoas ao redor.

Assim também as músicas que desencadeavam os ataques variavam de uma pessoa para outra e poderiam ser desde o rock até músicas clássicas.

Mitos


Quando procuramos saber mais a respeito dos efeitos nocivos da música, frequentemente encontramos artigos que “acusam” certos estilos musicais. O rock é o estilo mais atacado como música maléfica, enquanto a música erudita e o new age são consideradas ideais e benéficas.

Por sua característica “agressiva”, muitos falam que o rock não é uma música adequada ao relaxamento, incita a violência, promove agitação, rebeldia, baixo rendimento escolar e tantas outras influências nocivas ocasionadas por sua audição e de outros estilos com características similares (segundo os autores).

Como musicoterapeuta, nunca encontrei nenhuma base científica que corrobore com essa afirmação. Ao contrário, em uma tese de doutorado apresentada na USP, foi realizada uma pesquisa utilizando-se da música Trilogy do guitarrista Ingwie Malmsteen. 

No estudo, a intenção era expor crianças com Transtorno de Déficit de Atenção e Hiperatividade (hiperativos) à música citada e comparar os efeitos com aquelas que não ouviram.
Ao contrário do que muitos poderiam pensar, os movimentos do hiperativo foram menores durante a música e a análise funcional do movimento revelou que o hiperativo olhou o caderno e escreveu mais enquanto ouvia a música do que em silêncio. O estudo concluiu que a música favorece a diminuição da movimentação em sala de aula e a torna mais atenta.

Segundo a pesquisadora, ouvir a citada música de Malmsteen contribuiu, não para deixar as crianças mais agitadas, mas para diminuir a agitação e colaborar na concentração.

Como vimos acima, não é o estilo da música que exerce influência negativa ou positiva. Nos casos da epilepsia citada acima, muitos pacientes apresentaram ataques ouvindo peças eruditas e músicas “calmas e relaxantes”.  Portanto, representa um mito associar de maneira arbitrária os estilos musicais como bons e ruins.

Referências

SACKS, Oliver. Alucinações Musicais: Relatos sobre a Música e o Cérebro. São Paulo: Companhia das Letras, 2007.
Souza, Vera Helena Pessôa. Contribuições ao estudo da hiperatividade: determinação de índices para avaliação de comportamento irrequieto e alternativas de tratamento através da música. Tese apresentada  ao Instituto de Psicologia da Universidade de São Paulo para obtenção do grau de Doutor. São Paulo; s.n; 1995. 462 p.

sábado, 9 de setembro de 2017

O segredo de Bill Wyman (Rolling Stones)


***Bill Wyman, foi por 30 anos (1963 - 1993) o baixista dos Rolling Stones.

Fuçando as matérias da minha coleção de revistas Classic CD, encontrei esta interessante matéria escrita em 1998 pelo jornalista Jonathan Webster, baseada em uma entrevista concedida a ele por esta lenda do rock. Segue abaixo:

Ouvindo sua coleção de 5000 discos de vinil e 500 CDs, Bill Wyman, o baixista dos Rolling Stones, viu-se cada vez mais fisgado pela música clássica. Ele nos conta por que.

"Eu nunca pensei que um membro maduro dos Rolling Stones como eu chegaria a admitir isto, mas recentemente desenvolvi um gosto pela música clássica. Talvez isso tenha algo a ver com minhas duas adoráveis filhas dançando pela casa ao som do Quebra-Nozes de Tchaikovski num domingo de manhã. Com certeza, eu pus os olhos nelas para me certificar de que elas não colocariam as mãozinhas curiosas em minha discoteca.

Segundo minha contagem, tenho 5000 discos de vinil e 500 CDs - cujo núcleo está guardado no sótão de Gedding Hall, minha casa de campo medieval em Suffolk. Como era de se esperar, a grande maioria das prateleiras está cheia de gravações raras de blues, jazz, soul e swing. Contudo, em meio a elas há alguma coisa de mais sério, como obras de Bach, Mozart  e Mahler. Tenho tudo de Bach, das cantatas regidas por Harnoncourt pela Telefunken (Teldec Das Alte Werk) às interpretações jazzísticas daquele inconfundível mestre francês: Jacques Loussier. Quem não conhece este repertório - ou se escandalizaria coma ideia de Bach recebendo um tratamento jazzístico - deveria implorar, emprestar ou roubar uma cópia de The Best of Bach de Loussier.

Avançando pela história da música, onde ficaria eu sem uma boa dose da música de Mozart, para mim um cura-tudo, especialmente quando se trata de ressaca? E acho que a interpretação de Malcolm Bilson, ao pianoforte, das sonatas completas de Mozart (pela Hungaroton) é uma panaceia maravilhosa; tanto que gravei os três volumes em cassete para ouvir no carro.

O campo inglês pode provocar efeitos curiosos nas pessoas. Eu notei que desde que me instalei no campo também desenvolvi um gosto pela produção de compositores como Vaughan Williams e Elgar. Essa antiga nostalgia inglesa é, com certeza, algo duro de a gente se livrar, e obras como a Fantasia sobre um tema de Thomas Tallis de Vaughan Williams (existe uma fantástica versão, se não me falha a memória, com Sir Adrian Boult) chegam a provocar, mesmo num taciturno emotivo como eu, um tremendo nó na garganta.

Só para mostrar que não tenho sangue azul, diante de uma noite típica vario o cardápio musical ouvindo uma sinfonia de Mahler regida por Leonard Berstein e, em seguida, deixo a emoção correr solta ouvindo uma gravação dos anos 30 de Bing Crosby dando seu recado acompanhado pelos Rhythm Boys, seguida por Dr. John martelando algumas boas especialidades do soul-jazz de New Orleans.

Por falar em dar o recado, quero deixar registrada minha mais recente aquisição! Trata-se de uma trilogia de 3 CDs com uma viagem cronológica pela história dos blues, jazz, swing e soul (que vai dos anos 20 aos anos 70) e o primeiro deles - chamado Strutting' Our Stuff - acabou de ser lançado pela RCA, com um time de músicos capaz de deixar qualquer um doido."

CDs recomendados por Bill Wyman



J.S. BACH - Cantatas - vários solistas; Vienna Concertus Wien/Nikolaus Harnoncourt - Teldec


MOZART - Sonatas para piano - Malcolm Bilson - Hungaroton


MAHLER - Sinfonia Nº2 em Dó menor, "Ressurreição" - Hendricks (soprano); Ludwig (mezzo-soprano); Westminster Choir; New York Philharmonic Orchestra/Leonard Bernstein - Deutsche Gramophon


VAUGHAN WILLIAMS - Fantasia sobre um tema de Thomas Tallis; Sinfonia Nº2 - London Philharmonic/Sir Adrian Boult - EMI


TCHAIKOVSKY - O Quebra-Nozes - London Symphony Orchestra/Sir Charles Mackerras - Telarc

quinta-feira, 7 de setembro de 2017

O brasileiro que mais vendeu discos no mundo!

Foto da Internet

O sujeito aí da foto, que circula pelo calçadão do Rio de Janeiro (eu acho), chama-se Maurício Alberto Kaisermann, já ouviu falar? Não?? Pois saiba que ele já vendeu mais de 160 milhões de cópias por 50 países! Isso é mais disco que a Xuxa, que o Roberto Carlos ou qualquer outro brasileiro já vendeu na vida.

O Maurício nasceu no dia da Independência do Brasil em 1951 e na data desta postagem comemora seus 66 anos. Continua em plena atividade profissional como cantor e compositor. Já gravaram suas músicas nomes como Julio Iglesias, Barbra Streisend, Richard Clayderman e também gigantes da música como Elvis Presley, Frank Sinatra, Dionne Warwick, Sarah Vaughan, Ella Fitzgerald, George Benson, Shirley Bassey, Leonard Bernstein, Filarmônica de Londres, Sinfônica de New York, Count Basie, Caetano Veloso e muitos outros.

A história dele é mais ou menos a seguinte: no começo da década de 1970 era moda cantores iniciantes tentarem se dar bem no mercado fonográfico adotando nomes artísticos em inglês e compor nesse idioma. Não sei o porquê disso, mas suponho que seja por conta daquela "síndrome de vira-lata" que muitos de nós brasileiros sofremos de valorizar muito o que é estrangeiro e desmerecer o que é nacional. Enfim, seja como for, o Maurício entrou nessa e ao invés de tentar se lançar como Maurício Alberto, preferiu ser chamado de Morris Albert e se deu muito bem! Reconheceu o cara agora? Ainda não?? Então sigamos com a história.

Ao que parece, Morris copiou na cara dura a melodia de uma música italiana, colocou uma letra em inglês e tentou a sorte. A emissora Globo incorporou a música na novela "Corrida do Ouro" (1974) e o sucesso foi tão estrondoso que rompeu as fronteiras e tocou pra caramba por toda a América Latina. Maurício, quero dizer Morris, então tentou a sorte no mercado estadunidense e foi de mala e cuia para lá em 1975. O sujeito se deu muito bem, sua música virou super hit (Top 6 da Bilboard Hot 100!!) e fez a vida dele.

Muitos e muitos anos depois, a justiça estadunidense o condenou por plágio por conta dessa música, mas aí a carreira dele já estava mais do que estabelecida. Atualmente ele vive na Itália e de vez em quando lança algum trabalho novo.

Ah, quase me esqueci! A música chama-se "Feelings" e segue abaixo pra você curtir!


terça-feira, 5 de setembro de 2017

4'33" - Isso é música John Cage??

Artigo em razão dos 105 anos de Cage

Primeiramente, quem é John Cage?

John Milton Cage Jr. (5 de setembro de 1912 — Nova Iorque, 12 de agosto de 1992) foi um compositor, teórico musical, escritor e artista dos Estados Unidos. Cage foi um pioneiro da música aleatória, da música eletroacústica, do uso de instrumentos não convencionais, bem como do uso não convencional de instrumentos convencionais, sendo considerado uma das figuras chave nas vanguardas artísticas do pós-guerra.
Fonte: Wikipedia
  • 4'33"




Uma das partituras exóticas de Cage
Já se afirmou que existem apenas duas fases da carreira de John Cage: a primeira é quando ela faz sentido e a segunda, quando não faz sentido. Ou, quando ele compunha obras e quando não as compunha. A mudança ocorreu no início dos anos 50, quando Cage introduziu operações aleatórias em Music of Changes (Música de Mudanças). Como escreveu Sam Richards: "Varèse argumentou que a música é 'som organizado'. Cage tentou tirar a palavra 'organizado' da definição". Seu objetivo era "deixar os sons serem eles mesmos". O acaso e a rejeição da intenção artística foram levados ao extremo em 4'33". A partitura indica que deve ser tocada por qualquer número de executantes, em qualquer instrumento, e indica a duração de cada seção, mas a palavra "tacet". A "música" é propiciada por quaisquer sons ambientais que ocorram durante a "execução" - a ruptura máxima da barreira entre o compositor e a plateia. Depois desse sério surrealismo, Cage só poderia retroceder. A arte e a intenção que caminha com ela mostraram-se difíceis de bater em retirada.

Influenciados: Feldman, Ligeti e Cardew
Gravação recomendada: Frank Zappa - "A Chance Operation: The John Cage Tribute (Koch)

Texto extraído da revista Classic CD, Nº 19 (1998)


AUDIÇÃO

4'33" de Cage

Obs.: Vídeo muito curioso. Para poder usufruir melhor a experiência e captar todos os detalhes auditivos, recomendo o uso de fones de ouvido.

segunda-feira, 4 de setembro de 2017

O colecionador mais doido que já conheci!


Todo mundo que coleciona tem a prática de garimpar, ou seja, correr atrás dos preciosos itens para incrementar a coleção. Nos tempos atuais, muitos colecionadores têm optado por garimpar on line, aproveitando assim as facilidades da Internet sem precisar abandonar o conforto do lar. Eu geralmente não faço dessa forma. Prefiro o tradicional "bater perna" para encontrar meus itens. Há vantagens e desvantagens nessa prática e a principal vantagem que vejo é que, na minha opinião, esse modo é muito mais prazeroso. Ok, você pode discordar de mim, sem problemas! O fato é que ao buscar pessoalmente nossos itens, encontramos e lidamos cara-a-cara com pessoas dos mais diversos tipos, e recentemente eu me deparei com uma verdadeira figura! Essa é a história que narro a seguir.

Foto da Internet
Encontrei um antiquário nas minhas andanças e parei para perguntar se havia discos para vender. Infelizmente não tinha, então conversei com o dono do lugar pra saber se ele conhecia algum lugar ou alguém que teria discos para vender. Ele pensou um pouco e se lembrou de um conhecido que teria uns 5 mil discos na coleção e que estava interessado em vender. Recebi as coordenadas do local de trabalho da pessoa e nos despedimos.

Só pude dar sequência com a minha investigação no dia seguinte, quando me dirigi ao local de trabalho da pessoa - para preservar a identidade, chamarei-a de Bill. Era sábado, véspera de dia dos pais e Bill não se encontrava no local, entretanto, o número do telefone dele estava disponível na porta do local. Anotei e voltei para casa.

Após algumas tentativas desisti de continuar a ligar, pois Bill não atendia. Tentei novamente no domingo, dia dos pais, e ele atendeu. Me apresentei, disse que havia pegado o contato dele com um amigo em comum e que se ele realmente tivesse discos para vender, eu estaria interessado em dar uma olhada. Ele me perguntou quando eu poderia ir até a casa dele e eu respondi que estava com tempo no domingo mesmo. Bill concordou, mas me avisou que iria trabalhar no domingo e que eu deveria encontrá-lo após o expediente. Nos vemos após as 14 horas? - perguntei eu crente que ele trabalharia apenas até o horário do almoço. Que nada, hoje vou até as 22 h! - respondeu ele. Fiquei sem graça de, em pleno dia dos pais e após inúmeras horas de trabalho, fazer o cara ainda me atender em sua casa; pedi para deixarmos para outro dia, que ele deveria descansar. Que nada! Bill queria que eu fosse lá, mesmo nesse horário. Combinamos para as 22:20 e pontualmente eu estava em sua porta.

Bill era um rapaz que aparentava estar próximo dos 30 anos. Tinha uma barba bastante espessa e falava calmamente e em tom baixo. Entrei pela sua garagem e imediatamente notei uma estante repleta de LPs em meio a inúmeras caixas espalhadas, peças de carro, o próprio carro, pneus velhos e diversos entulhos.

Foto da Internet (não era tão bagunçada assim - risos)
Aí estão os itens para vender? Posso dar um olhada? - perguntei. Ele assentiu com a cabeça. No caminho até a estante fui me deparando com uma série de bizarrices: bonecas velhas, utensílios domésticos antigos e retorcidos, itens indígenas, incensos gastos e ossos! Ignorei tudo aquilo e me concentrei nos discos.

O primeiro que puxei era uma edição aparentemente nova do Powerslave do Iron Maiden, o segundo era outro Iron Maiden, o terceiro, o quarto - o cara tinha tudo do Iron! Na sequência vieram diversos dos Beatles, Rolling Stones, Led Zeppelin, Deep Purple, Creedence, Pink Floyd e muitos outros - tudo discografias completas e em estado espetacular!

_ Só não vendo os do Floyd e do Raulzito! - disse Bill. O cara tinha tudo e alguns até dobrados. O amigo do antiquário dissera que ele tinha 5 mil discos, um claro exagero, Bill tinha no máximo uns quinhentos naquela estante torta da garagem, mas só filé se você for apreciador do Rock 'N' Roll de primeira categoria.

Eu queria levar tudo, mas sabia que não teria condições de pegar tudo de uma vez - longe disso! Ainda mais se Bill tiver uma boa noção dos valores cobrados atualmente por itens daqueles - então o jeito foi elevar o critério de escolha e separar apenas aqueles itens que eu queria muito ter.

Ao finalizar as buscas em todas as estantes, reparei que havia esquecido de checar a mais alta. Havia alguns discos sob uma caixa. Testei o peso dela e percebi que apesar de grande ela não era pesada, então resolvi baixá-la. A caixa estava entreaberta e ao ver seu conteúdo tomei um baita susto, era o crânio de um animal - um cavalo provavelmente. Bill percebeu que titubeei com sua caixa nas mãos e pela primeira e única vez ele elevou seu tom de voz: CUIDADO!!

Para disfarçar meu espanto perguntei se ele se interessava por História, Arqueologia ou quem sabe Biologia... Só assim pra justificar ter em casa uma peça exótica dessas, embora a minha suspeita maior seja que o negócio dele era provavelmente bruxaria! Ele respondeu algo baixinho que eu não consegui entender. 

Ainda tentando quebrar o gelo, elogiei a coleção dele e perguntei qual era o seu toca-discos. Para meu espanto, ele disse que não tinha um. Decerto havia vendido - pensei e depois perguntei. Não, eu não tenho porque não gosto - disse Bill gentilmente - prefiro ouvir CDs ou MP3. Ah, então deve ser um daqueles colecionadores que gostam de ter uma estante cheia e bonita para mostrar para as visitas! - pensei, mas logo descartei a ideia, afinal, a estante dele era feia, torta e estava alojada em sua garagem e não sala de estar ou outro lugar mais nobre. Não, o motivo da coleção dele deve ser outro.

A conversa com Bill seguiu agradável e ele começou a falar alegremente dos seus garimpos, das pessoas que lhe ensinaram a colecionar e dos lugares incríveis onde ele adquiria seus discos. Bom, ele deve achar lindos os seus itens, as capas, encartes... deve ser um fetichista que gosta de pegar um disco, tirar da capa, olhar os detalhes e depois guardar de volta na estante. Acho isso tudo meio estranho, mas já ouvi falar de pessoas assim, talvez seja esse o tipo do Bill.

Peguei uma edição nacional gatefold de 1967 do clássico Sgt. Peppers dos Beatles e retirei do sleeve o LP. Chequei a conservação do disco - estava impecável e aparentemente sem uso - e ao retorná-lo ao sleeve fiquei com receio de rasgar o papelão e então pedi para Bill guardar para mim. Ele deve adorar - pensei - afinal é disso o que os colecionadores fetichistas mais gostam. Bill pôs o disco de lado e confessou para a minha surpresa que odeia ficar tirando LP de dentro da capa e devolvendo depois...

Restou então negociar os itens escolhidos. Eu me considero um negociante razoavelmente experiente, mas Bill se mostrou um cara duro na queda! Pensei em vencê-lo pelo cansaço, afinal já passava de meia-noite e ele vinha de um dia extenuante de trabalho. Que nada, por ele a negociação poderia durar até a alvorada! Cada argumento dito por mim ou por ele era seguido de alguma história que ele contava. No final fui eu mesmo que me cansei e dei um ponto final na negociação. Não paguei o preço que ele queria, mas paguei bem mais do que eu esperava. Apesar disso, paguei bem menos do que andam cobrando por aí nesses itens.

Fui para casa feliz da vida com meus 3 novos Yes, 1 Marvin Gaye, 2 Led Zeppelin e 1 Beatle, porém até agora não sei o que motiva Bill a colecionar ou pra que servem as ossadas!

sábado, 2 de setembro de 2017

Hans-Joachim Koellreutter, 102 anos!

Artigo em homenagem aos seus 102 anos
Nascido em Freiburg, Alemanha (02 de setembro de 1915), esse grande vulto da música mundial teve (e tem!) um papel dos mais relevantes para o desenvolvimento dessa arte em todos os lugares pelos quais passou. Ele foi um músico concertista (flautista e pianista) e compositor importante, contudo suas maiores contribuições estão no âmbito da educação musical.

Koellreutter teve que sair de sua pátria por conta do Nazismo. Apesar de não ser judeu e de seus pais serem favoráveis ao sistema de governo implantado por Hitler, o jovem músico havia se envolvido amorosamente com uma moça judia, o que fez com que ele fosse denunciado à Gestapo pelos seus próprios pais (!) correndo, então, o risco de ser preso ou até morto. Graças a amizade que ele desenvolveu com Heitor Villa-Lobos (1887-1959) - o compositor supremo do Brasil - e com o grande escritor Mário de Andrade (1893-1945), ambos frequentadores assíduos da Alemanha pré-Nazismo, o jovem Hans, já um famoso flautista, conseguiu viabilizar sua vinda para o Brasil.

Por aqui, em 1938, ele foi imediatamente contratado para lecionar no Conservatório Brasileiro de Música e após 10 anos no país, foi naturalizado brasileiro. Sua importância para a música erudita e popular da nossa nação foi gigantesca: fundou a Orquestra Sinfônica Brasileira, a Escola de Música da Universidade Federal da Bahia e diversas Escolas Livres de Música por todo o Brasil; foi professor também em outras universidades e deu aula para grandes músicos como Cláudio Santoro (1919-1989), Guerra-Peixe (1914-1993), Edino Krieger (1928-), Eunice Katunda (1915-1990) e Tom Jobim (1927-1994) - tendo sido o primeiro professor de música deste; foi mentor de um grande número de músicos, como  Caetano Veloso, Tom Zé, Moacir Santos, Gilberto Mendes, Marlos Nobre, Tim Rescala, Clara Sverner, Denis Mandarino, Gilberto Tinetti, Nelson Ayres, Paulo Moura, José Miguel Wisnik, Diogo Pacheco, Júlio Medaglia, Isaac Karabtchevsky, David Machado, Carlos Eduardo Prates, Nico Nicolaiewsky, Haroldo Mauro Jr, Roberto Sion, Carlos Alberto Pinto Fonseca, Afrânio Lacerda, Janete El Haouli, Teca Alencar de Brito, José Roberto Branco - Maestro Branco e Severino Filho (Os Cariocas).  Por meio de sua influência (e de outros, claro!) foi estabelecido o padrão das músicas popular e erudita brasileira moderna.

Suas inovações musicais foram a "Estética do Impreciso e do Paradoxal"; as incorporações na música ocidental do microtonalismo indiano e do zen budismo japonês, além do serialismo e da música experimental. Criou e fez parte do grupo Música Viva, que compunha músicas fortemente atonais e dodecafônicas - todas essas inovações merecerão artigos específicos futuramente aqui na página.

Escreveu ou influenciou a escrita de diversos livros sobre suas teorias musicais que são material indispensável para qualquer estudante de música.

Faleceu aos 90 anos em São Paulo no ano de 2005, de alzheimer.

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Eu tive o prazer de participar, junto com a minha esposa Flávia, de um curso ministrado por ele na cidade de Santos no final da década de 1990. Além do privilégio de ouvi-lo palestrar, ainda participamos de atividades práticas coordenadas por ele e aplicada por suas alunas.

Aqui no nosso acervo temos as seguintes obras literárias relacionadas a ele: