Já viu o meu canal no YouTube? Inscreva-se!

Vendinha do Tiozão do Vinil

domingo, 15 de outubro de 2017

Música Simples X Música Complexa




É difícil conceber um mundo sem música. Ela está intimamente enraizada em nossa experiência íntima, carregando memórias e emoções.

Ao nascer, já se sabe que bebês são capazes de distinguir entre escalas musicais, preferem harmonias consonantes em detrimento às dissonâncias e são aptos a reconhecer canções com facilidade.

Apesar do pouco repertório de informações, o bebê já demonstra um preparo básico para poder decifrar o mundo musical. Portanto, todos nascem com uma habilidade básica para música, não sendo necessário muito mais do que ouvir canções entoadas pela mãe, no rádio, na televisão para nos tornarmos musicais. Vemos isso no nosso país, dizem que o povo brasileiro é musical por natureza, e isso lá tem seu fundo de verdade...

Pensemos no caso desse bebê ser exposto a experiências musicais mais profundas, como audição de músicas com estruturas mais complexas, dificilmente tocadas nas rádios, (salvo poucas exceções) tais como peças eruditas, jazz, bossa nova, ou qualquer construção que ofereça ao cérebro desafios de processamento. A quase ausência de repertório “difícil” nas rádios se deve especialmente pelo fato de que a exposição de estruturas complexas não é aceito com facilidade por qualquer ouvido. A dificuldade inicial do cérebro no processamento dessas músicas gera irritação na maioria das pessoas.  Sabe-se que é um desafio muito maior processar uma construção de inúmeras harmonias, ritmos que se alteram constantemente, grande variedade de instrumentos tocando em uma mesma peça, do que processar melodias simples, harmonias de 3 acordes, no máximo 4 instrumentos diferentes e ritmo que praticamente não se altera. Não julgo aqui a qualidade estética da música, não quero de forma alguma afirmar que uma música é melhor se for mais “difícil”, e que músicas simples são ruins. Apenas discorro sobre os efeitos que esta diferença de estruturas musicais pode causar no desempenho cerebral.

O Efeito Mozart

Mozart
Recentemente, falou-se muito do “Efeito Mozart”. Afirmava-se que após a audição de peças desse compositor, o desempenho cognitivo se tornava melhor, ou seja, as pessoas ficavam “mais inteligentes” após ouvir trechos de Mozart. Considerado prodígio, o compositor austríaco Wolfgang Amadeus Mozart (1756-1791) começou a compor aos cinco anos de idade, e até hoje suas obras são reconhecidas como geniais. Na época, ganhou reconhecimento da crítica especializada, embora muitos considerassem suas obras excessivamente complexas.

A ideia de que a audição de peças clássicas por bebês o tornavam mais inteligentes, levou as gravadoras a produzirem uma enxurrada de Cds com músicas do repertório clássico especialmente para bebês.

Porém, até hoje, nenhuma pesquisa comprovou que a eficácia do Efeito Mozart seja duradoura. Muitas músicas podem sim liberar neurotransmissores capazes de fazer o cérebro funcionar com maior rapidez. Pesquisas comprovam que ouvir músicas que nos agradam, sejam elas quais forem, despertam efeitos semelhantes aos encontrados no Efeito Mozart. Assim foram encontrados os Efeitos Nirvana, Efeito Bach, Efeito Iron Maiden, e tantos mais.

Atualmente, estudos sugerem que os efeitos que a audição desperta em uma pessoa provém de pelo menos duas fontes:

  • A audição de músicas complexas: responsáveis pelo acionamento de um grande número de estruturas neurais, já que o desafio apresentado requer um grande número de áreas cerebrais a fim de realizar o processamento. Essa afirmação pode explicar o efeito ocorrido no cérebro ao ouvir as peças de Mozart, consideradas difíceis e complexas;
  • A audição de qualquer peça que seja significante: a experiência musical significativa produz marcas profundas no córtex cerebral. Portanto, independente da estrutura e grau de complexidade, as músicas carregam experiências emocionais marcantes, sejam elas positivas ou não, de qualquer maneira, uma música marcante é capaz de acionar grandes áreas cerebrais, atuando como um dispositivo e gerando efeitos diversos.

Segundo pesquisas, a audição é capaz de integrar grandes áreas cerebrais, entre elas, aquelas responsáveis pela cognição e emoção. Portanto, a música integra simultaneamente tanto processamentos emocionais como racionais, por outro lado, os efeitos no cérebro causados pela audição passiva são geralmente passageiros, a audição musical, mesmo prolongada, não é capaz de alterar a estrutura neural.

Podemos considerar que as pesquisas sobre os efeitos da música sobre o cérebro humano ainda estão no início, embora muitas descobertas importantes já tenham sido realizadas. O que se pode comprovar até agora, é que a audição de peças complexas, aliadas às inúmeras significações acionadas pela escuta, representa um enorme desafio para o cérebro, e que, apesar de não tornar seres mais “inteligentes”, melhora a capacidade de concentração, atenção, percepção e principalmente, colabora muito na construção de um ser mais sensível e aberto para desafios e novidades, muito além das imposições “enlatadas” oferecidas pela mídia.


Por Flávia Nogueira

Musicoterapeuta, musicista
e professora de música
Autora do blog Música & Saúde

Para ver o que já foi postado, clique

quinta-feira, 5 de outubro de 2017

Morning Dance - Spyro Gyra

Acervo pessoal
O Spyro Gyra é um grupo de Fusion que surgiu nos Estados Unidos em meados da década de 70, que atingiu sucesso comercial e gravou uma grande quantidade de discos. Seu som é influenciado pelo Smooth Jazz, R&B, Funk e Pop.

Os amigos Jay Beckenstein e Jeremy Wall se reencontraram após terminarem o curso universitário na cidade de origem de ambos: Buffalo. Como os dois trilharam o caminho da música, resolveram se juntar para jams na noite da cidade. Os temas giravam em torno do R&B, Pop e Jazz. Incorporaram outros músicos, acrescentaram uma sonoridade esotérica e formaram o Spyro Gyra. O nome foi ideia de Beckenstein que havia feito faculdade de biologia - spirogyro é um tipo de alga verde (lembra da música do Jorge Ben? "É um bichinho bonito, verdinho, que dá na água...").

Conforme aconteciam as apresentações, a banda foi crescendo até chamar a atenção de uma pequena gravadora que resolveu apostar no grupo. Sendo assim, em 1977 lançaram o primeiro álbum que, no ano seguinte ficaria entre os Top 40 dos álbuns de Jazz.

Vários integrantes passaram pelo grupo, músicos de Funk, Disco, Jazz, Pop, R&B, etc., e levaram consigo toda essa variedade sonora transformando o Spyro Gyra num grupo original de influências diversas.

Apesar de já terem conquistado o respeito no meio musical com o lançamento do primeiro disco, faltava o sucesso, e ele veio com uma forte divulgação da gravadora (agora a forte MCA) e com o lançamento do álbum "Morning Dance". Assim conquistaram os EUA e a Europa.


Morning Dance (1979)



AUDIÇÃO COMENTADA

Meus destaques em vermelho 

01 - Morning Dance
Violão, percussão, xilofone. Um tema latino capitaneado pela bela melodia do sax alto.

02 - Jubilee
Guitarra e baixo cheios de groove. Metais em profusão e sax alto a toda. Solos de sintetizador, sax alto, guitarra e baixo. Uma grande e prazerosa viagem!

03 - Rasul
Um delicado tema solado em sax soprano e depois pelo tenor. Intervenções de uma inusitada trompa.

04 - Song For Lorraine
Um fusion típico à lá Weather Report. Ritmo quebrado e complexo - walking bass!

05 - Starburst
Teclado com timbre "strings". Guitarra sincopada e sax alto esmerilhando. Os teclados assumem vários timbres no decorrer da música. No meio, temos uma cadenciada para depois retomar com tudo na percussão!

06 - Heliopolis
Ritmo mais convencional, de pegada mais leve. Longo solo de teclado. Trabalho econômico na percussão. Boa, mas inferior às demais. 
 
07 - It Doesn't Metter
Pela primeira vez vozes no arranjo. Destaque para a guitarra. Belo encadeamento de acordes da harmonia.

08 - Little Linda
A percussão já anuncia que a coisa vai pegar fogo. O sax mostra um agradável tema. O teclado com timbre de piano também marca boa presença abrindo para o solo do xilofone. Quase um sambinha.

09 - End Of Romanticism
Os metais abrem com peso e o teclado sola na sequência em andamento acelerado. Após nova intervenção dos metais, o andamento desacelera e a harmonia destaca primeiro a trompa e depois a guitarra que apresenta um belo solo. 


Texto: Rodrigo Nogueira
Fonte histórica: Wikipedia

domingo, 1 de outubro de 2017

Quer Estudar Violão? Confira Antes Estas Dicas!



Então você está querendo aprender violão clássico, mas não sabe muito bem por onde começar?

A maioria das pessoas têm um violão em casa. Seja o instrumento emprestado que as crianças trouxeram da escola, ou a antiga relíquia que papai guarda como lembrança dos dias em que tocava o instrumento. É provável que haja, em algum ponto de sua vida, uma coisa com braço, caixa e um conjunto de cordas. Contudo, também é possível que, mesmo que você tenha acesso a esse instrumento, nunca lhe tenha sobrado tempo para levá-lo a sério.

Felizmente, nos últimos anos vem ocorrendo uma revolução no ensino do violão, com instrumentos de qualidade produzidos em série, um grande número de escolas e métodos, e, por fim, a oportunidade de o aluno entrar em contato com um professor qualificado de violão clássico ou popular.



Partes do Violão



Que instrumento comprar para começar?
Como seu primeiro violão, você não precisa necessariamente de um instrumento de concerto feito a mão que você sequer ousaria tirar do estojo para limpar. Por outro lado, de pouco adianta comprar um instrumento barato e mal feito do qual nem o maior violonista conseguiria tirar um som bonito. Os violões são baratos se comparados com a maioria os instrumentos da orquestra – os modelos para aluno vão de R$ 250,00 a R$ 550,00. Existem até violões especiais para os mais jovens, disponíveis em metade e três quartos do tamanho normal.

O principal fator na hora da escolha, tanto em termos de preço quanto de qualidade sonora, é a construção do tampo. Ele é feito de uma madeira macia e laminada, normalmente espruce ou cedro, nos violões mais baratos. Os tampos de madeira laminada não apresentam bom timbre e projeção, o que, por outro lado, significa que seus pobres dedos terão que trabalhar com mais empenho; portanto, escolha um violão de tampo sólido – cujo preço parte de, mais ou menos R$ 300,00. Além disso, para que o violão seja “tocável”, ele deve apresentar a “ação” correta, ou seja, a distância entre as cordas do braço. Se ela for muito pequena, as cordas podem zumbir e bater contra os trastes – se ela for grande, será difícil ou impossível produzir as notas de maneira precisa.

Embora a maioria das lojas de instrumentos musicais vendam violões, é mais aconselhável procurar uma loja especializada, onde você poderá encontrar instrumentos importados e “autênticos”. Se você for passar férias na Espanha, aproveite a ocasião, pois nesse país os violões são incrivelmente baratos, e existem luthiers (fabricantes de instrumento) e lojas em toda a região da Andaluzia, que inclui locais turísticos como Torremolinos, Málaga e Marbella. Por fim, onde quer que você adquira seu instrumento, experimente levar com você um violonista ou um professor experiente.

 Luthier em sua oficina

Descobrindo um professor
É sempre difícil decidir que professor é o mais adequado às necessidades e capacidades do aluno. Com isto em mente, não assuma compromisso de assistir a um curso completo sem antes ter tido algumas aulas particulares com diferentes professores. E cuidado com os que prometem mundos e fundos por um preço módico.

Obtendo um diploma
Depois de ter tocado suas primeiras peças, é possível que você queira fazer um curso de violão clássico num conservatório ou numa faculdade de música. As opções estão começando a se diversificar pelo país afora.

A maioria do repertório para o aluno de violão clássico foi escrito no século XIX; assim, você vai encontrar nomes como Carcassi, Giuliani e Scor em quase todos os métodos publicados. Em níveis mais adiantados, transcrissões mais ambiciosas de obras já existentes também aparecem (p. ex., as peças para alaúde de Dowland e de J. S. Bach)


A prática traz o prazer 
Como acontece com qualquer outro instrumento, você vai precisar trabalhar muito antes de conseguir ouvir alguma coisa que seja musicalmente inspiradora. Mas se você estudar o tempo necessário, esforçando-se ao máximo, os resultados valerão a pena. Ou, pelo menos, é o que achava Andre Segovia, que certa vez assim descreveu o violão: “… o mais imprevisível e o menos confiável dos instrumentos musicais que existem, e também o mais doce, o mais quente, o mais delicados devaneios em nossa alma”. Tenha sempre isto em mente, mas não vá exigir demais de sua primeira lição…
Texto: Joe Bennett – é professor de violão e
editor da revista inglesa Total Guitar


 Andres Segovia, um dos maiores de todos os tempos

Onde Estudar
Que tal um lista em que a satisfação é garantida?
  • Escola de Música e Belas Artes – Curitiba (PR)
  • Escola de Música do Espírito Santo – Vitória (ES)
  • Conservatório JKO – Pouso Alegre (MG)
  • Universidade do Rio de Janeiro – Rio de Janeiro (RJ)
  • Conservatório Brasileiro de Música – Rio de Janeiro (RJ)
  • Escola de Música Villa-Lobos (RJ)
  • Escola de Música e Cia da Cordas – São Paulo (SP)
  • Universidade de São Paulo – São Paulo (SP)
  • Faculdade Carlos Gomes – São Paulo (SP)
  • Instituto de Artes da Unesp – São Paulo (SP)
  • Faculdade Santa Marcelina – São Paulo (SP)
  • Conservatório Dr. Carlos de Campos – Tatuí (SP)

APROFUNDE SEU CONHECIMENTO!

Seis grandes violonistas:

Francisco Tárrega (1852 –1909) – O primeiro grande mestre do moderno instrumento de seis cordas. Foi o pioneiro do “recital” de violão, tocando dezenas de peças escritas de sua própria autoria.

Andres Segovia (1893 – 1987) – Gênio espanhol autodidata que impôs o violão como instrumento “sério”, atraindo para ele total atenção popular. Estilo intimista, sutil e introspectivo. Encomendou muitas obras novas em seus 77 anos de carreira.

Julian Bream (1933) – Depois de Segovia, provavelmente o mais importante violonista deste século. Virtuose brilhante, com interpretações profundamente artísticas. Grande incentivador de novas peças.

John Williams (1942) – Nascido na Austrália, espécie de aluno de Segovia e ativo na moderna tradição virtuosista estabelecida por Bream. Um inovador da fusão de diversos estilos de música. (confira uma música interpretada por ele mais abaixo no post)

Carlos Bonnell (1949) – Foi o mais jovem professor do Royal College of Music, a partir de 1972.

Slava Grigoryan (1976) – Um dos muitos jovens pretendentes ao trono das seis cordas. Põe em evidência um temperamento ardente e uma técnica formidável.

Seis grandes obras

Canciones populares – Segovia – Ele compôs pouca música, mas estas 16 peças curtas, baseadas em canções folclóricas, são deliciosas.

12 Estudos – Villa-Lobos – Juliam Bream chamou estas peças inovadoras, escritas em 1929, de “o equivalente, para violão, dos Estudos para piano de Chopin.

Concerto de Aranjuez – Joaquim Rodrigo – De longe, a mais conhecida composição já escrita para o violão clássico.

Nocturnal – Benjamin Britten – Escritas em 1963, estas meditações sobre o sono e a noite, a partir de um tema de John Dowland.

Cinco Bagatelles – Walton – Walton completou-as em 1971, quando tinha 69 anos, mas elas cintilam com energia e inventividade.

Royal Winter Music – Henze – Uma sonata meditativa, em seis movimentos, escrita em 1976, com base em personagens de Shakespeare.

Audições e Análises
Mestre Segovia em ação!



O violão é conhecido como guitarra na maioria dos países. O que para nós é chamado guitarra, para eles é a guitarra elétrica.

O alaúde mouro foi a base para a evolução do violão e na época de Vivaldi, havia um instrumento que significava a transição de um para outro.

Alaúde

Stélé, segundo movimento – Philip Houghton 


“Stélé”, explica o violonista John Williams “são estrelas ou momentos da Grécia antiga”, cujas imagens são usadas pelo compositor australiano Philip Houghton como um estímulo para se evocarem “impressões e memórias do passado”. O segundo movimento é particularmente difícil de tocar. Ouça, em especial, as seguintes características da interpretação:




00:00 – A série de crescendos tensos e em golpes secos com que a música se inicia. 00:15 – Um floreio das cordas bem no alto do braço.

00:17, 00:52 – Figurações insistentes e de notas repetidas que atribuem ao movimento sua característica de perpetuum mobile.

01:26 – Três intervenções de notas únicas e tocadas de maneira brusca intensificam a tensão à medida que a peça avança para seu fim.


Prelúdio Nº 1 em E menor – Heitor Villa-Lobos – Violão: Fábio Zanon

Com os cinco prelúdios (1940) Villa-Lobos retoma sua obra violonística pontuando uma estética mais conservadora em relação ao trabalho anterior, os 12 Estudos (1929). Este foi o período em que o compositor estava envolvido, entre outras obras, na criação do ciclo das Bachianas Brasileiras, e frente ao grande projeto de educação musical do governo Vargas, envolto em uma grande euforia patriótica durante o período da 2ª Grande Guerra. Esta visão ufanista do compositor se reflete nos Prelúdios através de tributos prestados aos povos simples da cidade (Prelúdios Nº 2 e 5), do campo (Prelúdio Nº 1) e da floresta (Prelúdio Nº 4). A presença de Bach como elemento central e universal da criação, fonte de inspiração e idolatria, pode ser percebido no Prelúdio Nº 3, que possui um melodismo fácil e atraente. Deve ser salientado que Villa-Lobos foi um mestre das pequenas formas e um profundo conhecedor do violão, instrumento que executava com fluência.

O prelúdio Nº 1 em E menor, construído em uma forma ternária simples é, segundo o compositor, uma homenagem ao sertanejo brasileiro.



00:00 – A primeira parte do prelúdio é toda desenvolvida nos bordões do instrumento, lembrando um violoncelo. Ele apresenta uma melodia de caráter grave e apaixonado que é exposta três vezes, retomada sempre com maior intensidade, chegando a explorar a região mais aguda da quarta corda.     
01:10 – Após o ápice de uma progressão de notas apresenta-se um novo elemento melódico, desenvolvido simetricamente e concluindo esta primeira parte.

01:37 – Na segunda parte do prelúdio uma rápida mudança de atmosfera é logo percebida por uma passagem arpejada para a região aguda. A presença luminosa da tonalidade E maior, a forte trama rítmica e a troca súbita de andamento nos remete aos ponteios dos violeiros sertanejos.

02:45 – Segue-se a reapresentação integral da parte inicial, concluindo a obra com a nota Mi, a mais grave do instrumento.

Fontes: Várias edições da revista Classic CD

Bônus!

quinta-feira, 28 de setembro de 2017

O cérebro do músico



A “plasticidade cerebral”

Durante muitos anos pensou-se que a maturação cerebral se desenvolvia na infância, e não poderia ser modificada posteriormente. Hoje, a partir do avanço científico, sabe-se que o cérebro é capaz de se adaptar e até modificar-se, de acordo com as experiências vivenciadas ao longo de toda a vida, e não apenas na infância.

A música, e mais especificamente, o estudo musical, vem sendo tema de muitas pesquisas nas quais o principal objetivo é aprofundar a compreensão da neuroplasticidade. O termo plasticidade cerebral, ou Neuroplasticidade, referem-se às alterações que ocorrem na organização do cérebro como resultado da experiência.

Estudos comparativos entre músicos e não-músicos, vêm demonstrando as diferenças de organização e anatomia cerebral entre esses dois grupos.

Atualmente sabe-se que certas regiões cerebrais (corpo caloso, córtex motor e cerebelo) podem apresentar alterações funcionais e estruturais causadas pelos desafios e exigências requeridas pelo estudo musical.

Essas diferenças na anatomia cerebral de músicos são evidentes em exames de neuroimagem (ressonância magnética, tomografia computadorizada), porém, quais são as conseqüências (benéficas ou não) de tais diferenças no cotidiano dos músicos, foram pesquisadas através de uma série de estudos comparativos.

Efeitos práticos da neuroplasticidade entre músicos e não-músicos




Iremos analisar os efeitos práticos decorrentes das mudanças anatômicas das três estruturas cerebrais citadas acima.

Corpo caloso - Conjunto de fibras nervosas que conectam os dois hemisférios cerebrais.
O corpo caloso desenvolve um papel importante na integração funcional entre os dois hemisférios.



É consensual no meio científico, que o controle do movimento e a coordenação motora, assim como a transferência inter-manual de informação sensório-motora, aumentam gradualmente entre quatro e onze anos de idade, o que coincide com o período de maturação do corpo caloso.

Segundo os pesquisadores, a principal hipótese da mudança anatômica do corpo caloso é o treinamento musical precoce, especialmente de pianistas, que desenvolve na fase de maturação, habilidades bi manuais complexas, ou seja, a exigência do instrumento desenvolve a habilidade das duas mãos de tal maneira que altera a estrutura cerebral.

Pensa-se que a adaptação sofrida na estrutura cerebral, mostra-se benéfica em outras áreas que exigem habilidades motoras, não se restringindo às capacidades musicais.



Córtex motor – área responsável pela execução dos movimentos motores.

Os córtices motor direito e esquerdo apresentam assimetria, ou seja, indivíduos destros apresentam o córtex motor esquerdo maior que o córtex motor direito (nos canhotos isso se inverte). Porém, exames realizados com indivíduos músicos e não músicos demonstram que esse padrão de assimetria é reduzido nos músicos.
Em testes manuais onde os indivíduos deveriam demonstrar agilidade e rapidez com ambas as mãos, o grupo de músicos realizou os testes de maneira mais ágil e satisfatória que o grupo de não-músicos.

O estudo também verificou uma correlação entre o tamanho do córtex motor de ambos os hemisférios e a idade de início dos estudos musicais. Quanto mais cedo o início dos estudos, maiores as dimensões do córtex motor direito e esquerdo.

Assim, esses indivíduos com maior córtex motor e menor assimetria inter-hemisférica poderiam se sobressair no desempenho de determinadas habilidades motoras e superar indivíduos que apresentam menor córtex motor, ou maior assimetria, ou ambos.

Cerebelo  área responsável pela manutenção do equilíbrio e pelo controle do tônus muscular e dos movimentos voluntários, bem como pela aprendizagem motora. Dependemos do cerebelo para andar, correr, pular, andar de bicicleta, etc.
Os músicos apresentam aumento do volume cerebelar em torno de 5% sobre indivíduos não músicos. Estudos ainda estão em andamento a fim de verificar os benefícios trazidos por essa mudança anatômica, porém, sugere-se que os músicos desenvolvem maior habilidade de reflexos motores, maior agilidade e coordenação motora fina mais sofisticada que não músicos.  





Outros efeitos testados em estudos comparativos demonstram habilidades elevadas:

Campo auditivo: músicos que iniciaram o estudo musical até os nove anos de idade apresentaram maior desempenho auditivo que não músicos e músicos “tardios”.

Capacidades cognitivas: muitas pesquisas têm relatado associações positivas entre estudo formal de música em crianças e capacidades pertencentes ao domínio não-musical, como linguagem, matemática e raciocínio visio-espacial, demonstrando que a habilidade cognitiva se estende para outras áreas além da musical. Embora os “efeitos” do estudo musical na fase infantil sejam mais evidentes, pesquisadores sugerem a possibilidade da persistência dos benefícios do treinamento musical, em domínios não-musicais, na fase adulta. Portanto, o estudo musical no adulto também pode trazer benefícios cognitivos em áreas não musicais.

Capacidade visual: Os músicos apresentam maior rapidez do movimento dos olhos, o que pode beneficiar seus reflexos em atividades cotidianas. Segundo os pesquisadores, a leitura complexa e rápida da partitura desenvolve uma agilidade especial em músicos formais.

Atenção: a complexidade de elementos que um músico precisa dispensar ao tocar uma música pode desenvolver uma capacidade atencional diferenciada. Para executar uma peça musical, um músico precisa atentar simultaneamente para muitos elementos: execução das notas corretas, métrica, dinâmica, movimentos motores finos, interpretação, performance no palco, integração com o grupo (se for o caso), e tantos outros elementos que exigem uma rápida resposta. Todo esse desafio acarreta num desempenho de atenção acima da média.


Enfim, poderíamos nos estender muito mais, afinal, o cérebro humano é tão formidável, que quando começamos a nos aprofundar um pouco sobre seu funcionamento nos deparamos com sua enorme complexidade.

Com esse artigo, procurei demonstrar um pouco o conteúdo de pesquisas recentes que comprovam que o estudo da música desde a infância pode sim trazer benefícios que se estendem para a vida adulta, e vão além do instrumento musical. Vimos que músicos respondem melhor tanto no campo motor como no campo cognitivo.

Assim, os benefícios da música vão além do desenvolvimento cultural, eles abrangem adaptações cerebrais únicas que beneficiam os indivíduos em muitos aspectos importantes da sua vida.






Por Flávia Nogueira
Musicoterapeuta, musicista, regente
e professora de música
Autora do blog Música & Saúde








Referências bibliográficas

OLIVEIRA E RODRIGUES, Ana Carolina. Atenção Visual Em Músicos E Não Músicos: um estudo comparativo. Dissertação de mestrado em Música.  Belo Horizonte: UFMG, 2007.

PEDERIVA, Patrícia L. M., TRISTÃO, Rosana M. Música e Cognição. Brasília: Ciências e Cognição, 2006, Vol. 9: 83-90.
PERETZ I., ZATORRE R. Brain Organization for music processing. Montreal: Annual Review Psychology, vol. 56, 2005.

segunda-feira, 25 de setembro de 2017

Tex, o heroi italiano do velho oeste

Minhas primeiras experiências com a leitura se deram muito cedo com as famigeradas (na época) histórias em quadrinhos. Com elas, aprendi muito sobre história, mitologia, o significado de termos diversos, costumes e condutas.

Cada vez mais interessado, procurei conhecer vários títulos que foram desde a Turma da Mônica até as linhas mais adultas como as do selo Vertigo (DC Comics) e as Graphic Novels. Fascinado por essa rica fonte de conhecimento, colecionei todas que pude. No decorrer de minha vida, fiz e desfiz algumas vezes estas coleções e hoje, na altura dos meus 40 anos de idade, me orgulho muito da minha ainda incompleta coleção de revistas do Tex.

Para quem não conhece, o Tex Willer é um personagem criado em 1948 pelos italianos Giovanni Luigi Bonelli e Aurelio Gallepini, devido à fascinação que o primeiro tinha pelo Western estadunidense.

Sua origem é como um vaqueiro do Texas que junto com seu pai e irmão, tentavam viver a vida tranquilamente, até que um bando de criminosos mexicanos roubam sua fazenda e assassinam seu velho pai. Tex segue em seu encalço nos territórios mexicanos e faz justiça com as próprias mãos. Sendo perseguido como um criminoso, passa a viver em um circo onde desenvolve diversas habilidades. No decorrer das histórias, acaba recebendo o perdão por seus crimes a auxilia o exército nortista (por seus princípios de igualdade racial) na guerra de secessão como batedor, sem lutar contra seus compatriotas sulistas. Suas aventuras o acabam levando a conviver com o povo indígena dos Navajos, com quem faz grande amizade ao ponto de se casar com a filha do chefe e, após o falecimento deste, torna-se o (improvável) chefe de toda a nação Navajo. Com o tempo, se torna um Ranger e junto com seus fiéis amigos Kit Carson (personagem histórico), Jack Tigre (um índio Navajo) e seu filho Kit Willer, lutam pelas pradarias contra os inimigos da lei e da justiça.

PRINCÍPIOS E ENREDO

Tex tem grande senso de justiça e utiliza todos os métodos ao seu alcance para obtê-la, mesmo que para isso tenha que se aliar com indígenas contra os brancos ou vice-versa. Consegue desbaratar os esquemas dos poderosos especuladores de terras, escapar de diversas armadilhas e conhece como ninguém a natureza humana. É um amigo fiel que nunca deixa seus companheiros sem auxílio, mesmo que para isso tenha que cavalgar até o longínquo e gelado Canadá, ou ao agitado leste estadunidense.

Também é comum Tex ter que lidar com o sobrenatural, governantes, exército, personagens históricos como Wild Bill, Buffalo Bill, General Custer, Jerônimo, Cochise, etc.; assim como paleontólogos, historiadores e arqueólogos.

As histórias consistem em dissolver grandes mistérios e conspirações, sempre com muita ação e bravura.

SOBRE A REVISTA

As aventuras de Tex começaram a ser publicadas no Brasil em 1971, trazidas pela extinta Editora Vecchi. Depois passou às mãos da RGE, Globo e atualmente é publicada pela Mythos. Provavelmente é a única revista com tanto tempo de publicação que mantém sua sequência numérica até hoje (se aproxima do número 600!).

Por tradição e para destacar as belas obras dos desenhistas da revista, suas edições saem até hoje em preto e branco, embora recentemente tenha sido lançada uma coleção de luxo em cores.

 Além da edição normal, também são publicadas as séries Tex Coleção, Tex Gigante, Almanaque Tex, Tex Ouro, Tex Edição Histórica entre outras.

Atualmente, mantenho em meu acervo mais da metade das numerações da edição "normal" e sempre que visito alguma cidade, garimpo nos sebos edições antigas para minha coleção.

Minha esposa Flávia, um dia pegou uma revista para ler e foi contaminada pelo prazer desta leitura. Hoje ela é minha parceira na leitura e coleção, o que faz com que fique ainda mais agradável ler e colecionar as aventuras de Tex e seus pards.

Não quer experimentar? Você encontra as edições do Tex em praticamente qualquer banca de revistas pelo país.

Deixarei mais para futuros artigos, pois é chegada a hora do almoço e como Tex costuma dizer quando chega em algum saloom após longa viagem no lombo de um cavalo: "Garçom! Quero um bife de três dedos de altura, sepultado em uma montanha de batatas fritas, acompanhado do seu maior copo cheio de cerveja gelada!"

Adiós amigos!